9 Anos Depois, eu retorno a um Brasileiro

Chegou o brasileirão, meus amigos. 12 equipes se encontram em São Paulo para tentar ser campeã; todas elas querem, mas uma única conseguirá. Mais ou menos com este script se inicia cada campeonato: pessoas ou equipes reúnem-se em torno de algo, lugar ou objetivo, todos querem o título, mesmo que lá no fundo, o conhecimento sobre suas capacidades lhe orientam a objetivarem modestos degraus.

Assim, e não poderia deixar de ser, é mais uma participação minha e da equipe que faço parte. Todos nós vimos para cá sonhando com um título, remoto talvez, mas alavancador para tentar chegar o mais longe possível. Se tecnicamente esta equipe é um remendo de um velho, EU, com grandes promessas jovens, Thiago's e Felipe, mais o incansável Alessandro, além do grande goleiro Milton e das gratas e talentosas presenças, mas talvez não tão entrosadas participações de Hasan Satay e Esequiel Fernandes, mentalmente e pela fraternidade que nos une, inclusive aos estrangeiros, pretendemos dar algum trabalho a nossos adversários, praticar um bom futebol e fazer, com alegria, aquilo que gostamos todos nós, de fazer: jogar bola.

Talvez assim, com menos ou mais linhas, podemos resumir o sentimento de nossa equipe neste campeonato brasileiro de futebol para cegos aqui no CT Paralímpico.

De minha parte, especialmente, queria poder continuar apoiando o desenvolvimento do esporte, agora dentro de quadra, bem especialmente, no Rio de janeiro e muito mais especialmente ainda, no Instituto Benjamin Constant, onde jogo hoje. E é só por isso que tenho tido motivação para retornar ao futebol de mais alto-nível. Afinal, após 8 anos parado, depois de ter conquistado tanta coisa como atleta e como dirigente, pela seleção e fora dela, realmente manter-se motivado em tempos atuais não é muito fácil.

Neste sentido, além de ver esta molecada jovem vindo, cheio de gás buscando seus espaços, queria falar da presença e participação de meus amigos turco Hasan Satay e argentino Esequiel Fernandez.

Primeiramente, agradecer a eles 2 por aceitar este desafio. Sair de seus países, só, com poucos ou nada de conhecimento sobre a língua, sobre os lugares, sobre quase tudo... Olha que nem seu estou certo que faria isso... Mas eles fizeram. Hasan, talvez pelo idioma, a situação mais preocupante, estudou um básico de português, inglês e confiou bastante em mim; só por isso, a motivação vai bem para o alto. Ainda me lembro como hoje quando ele me perguntou como a gente ia se comunicar... E eu disse, sinceramente, não sei, mas dará certo, confie em mim... E hoje ele está aqui. Esequiel, uma indicação de um grande amigo do futebol para cegos, com apenas 2 anos de futebol e uma qualidade incrível. Uma gana comum dos amigos argentinos e um coração de irmão. Realmente eu não tenho como agradecê-los por tudo que já fizeram por mim e por nossa equipe.

Minhas inexistentes capacidades de prever o futuro não me permite dizer sobre resultados esportivos da vinda de Hasan e Esequiel, mas sim, podemos falar de questões sociais, que aliás, foi uma de minhas maiores intensões ao convidá-los.

Eu poderia enumerar um monte de coisas, mas fico nas seguintes: ao perceber nossos jovens atletas tentando se comunicar em espanhol e inglês com eles; ao vê-los tentando aprender turco; vendo suas curiosidades sobre o esporte em seus países; ao perceber a curiosidade e interesse dos alunos do IBC com a presença deles lá, fazendo com que mquase 20 alunos se reunissem em torno deles durante o jantar para tentar falar, comunicar-se com eles; eu já acho que valeu a pena demais. Experiências de culturas diferentes, com linguagens diferentes para esta meninada nova, que pouca oportunidade possuem... SIM, VALEU A PENA MUITO.

 

Tudo isso sem falar a oportunidade de treinar junto, de observar o comportamento de jogadores do nível de Hasan, que integrou a seleção do campeonato no último mundial; ou mesmo da gana juvenil de Fernandes, nossos novos meninos ganham; são ofertas que lamentavelmente o nosso esporte só oferece a atletas de seleção, talvez em muito alto-nível e que conseguimos, mesmo que por um tempo curto, trazê-las para cá, para a base, para nossa base.

 

Quem dera estas sementes germinem e que frutos interessantes surjam. Eu continuarei regando, pois realmente tenho muitas ideias nesta linha de intercâmbio cultural e esportivo para atletas cegos, principalmente.

Mas agora é hora de pensar em campeonato e iniciamos a batalha contra a fortíssima equipe da APADEVI, de Campina Grande, ainda hoje. Amanhã encontramos com a equipe da UBC, de Feira, Bahia, igualmente forte, já que é a atual vice-campeã do regional Nordeste, talvez o mais forte do país; e encerramos nossa participação na primeira fase contra o CDMAC, de São Luiz, atual vice-campeão brasileiro. Só pedreira; elas ficaram todas entre as 4 primeiras do regional nordeste deste ano... quer mais!?

Bem, por aqui ou pelas redes sociais eu tentarei ir atualizando e contando com a torcida de todos!