O CT PARALÍMPICO: ALEGRIAS E PREOCUPAÇÕES

Caros amigos, em especial, aos companheiros paralímpicos,

 

Foi uma alegria imensa acompanhar, mesmo de longe, a abertura do edital de chamamento para a gestão do Centro de Treinamento Paralímpico Brasileiro, feito ontem, durante a abertura dos Jogos Universitários, no próprio CT. Esperamos tanto por isso, eu, inclusive, na época, enquanto presidente da CBDV, e ontem, enfim, saiu!

Agora é aguardar as propostas e torcer para que o CPB mantenha a gestão, lamentavelmente, por 5 anos apenas (não sei sobre o edital, por exemplo, se é prorrogável por mais 5). Fato é que o CPB, pelo conhecimento do movimento, pela capacidade técnica e, claro, pelo dinheiro que foi separado por autorização do Conselho Deliberativo para tal, reúne as melhores condições para sua gestão.

A lamentar, como disse, o curto período de tempo (não sei se legalmente poderia ser maior) e a altíssima concentração dos eventos nas instalações. Calma, explico!

Todos nós sabemos que o movimento paralímpico, por sua juventude, por sua pouca visibilidade, pelo baixo investimento e pela pouca estrutura, se mostra minimamente visível em eventos nas cidades onde são praticados, ou seja, ainda somos de baixa adesão, lamentavelmente. Ao concentrar os principais eventos no centro, tiramos a oportunidade de cidades menores, capitais do nordeste, por exemplo, receber e ter uma onda de notícias paralímpicas, ao menos, por aqueles dias. Esta concentração de eventos também concentra a mídia, as informações. E mesmo dizendo que a mídia de São Paulo é nacional, eu ainda acho que a mídia local tem mais "entrada", naquela localidade, que a mídia nacional. Além disso, retira a possibilidade de alunos de escolas públicas, projetos sociais e público em geral, familiares de atletas, enfim, das pessoas do restante do Brasil, vivenciarem o esporte mais de perto, contribuindo para a informação, combatendo o preconceito e a discriminação, e trabalhando para uma maior inclusão das pessoas com deficiência.

Outro ponto que deve ser analisado, em especial, por atletas e associações de outras regiões mais distantes do CT, é a desigualdade técnica e financeira que podemos está ampliando. É muito importante que as associações que estão em SP e região usem o CT, afinal, o espaço é nosso e precisa ser usado. Também é importante que se promova lá, trabalhos sociais com escolas, visando atender deficientes da rede educacional, oferecendo qualidade de vida, oportunidades e um caminho para o esporte. No entanto, tais ações, apesar de essenciais e necessárias, ampliam as dificuldades que já encontramos hoje. Ao ter a oportunidade, justa, de usar o CT, as associações da região possuem uma estrutura que o restante do país não têm. Ainda mais, é que com os trabalhos feitos junto as crianças, o CPB apoiará na descoberta e qualificação de novos atletas, que servirão a estas mesmas equipes que já usam o CT em eventos nacionais.

Através destas duas ações, fica claro que a médio prazo, teremos sim uma diferença técnica muito grande entre associações de SP e as demais. Juntando a questão da pouca visibilidade local, por conta da realização dos principais eventos em SP e, ainda mais, com a necessidade de se deslocar sempre para SP, ao contrário das equipes de SP, que não gastarão com o deslocamento, teremos uma situação que técnica e financeiramente, pode, no futuro, enfraquecer de tal modo, as associações mais distantes de São Paulo e do CT.

Obviamente que eu não estou pedindo para o CPB não permitir o treinamento das associações no CT; muito menos, aachando ruim o uso do CT para qualificar jovens. Mas é fato que uma balança precisa ser aplicada para não sufocar as demais associações. Talvez realizar eventos esportivos fora de SP seria, ainda pequeno, mas um início de um pensamento neste sentido.

Outra coisa que me preocupa, mesmo sabendo que há pouco a fazer contra, é a retirada de bons atletas de suas cidades e associações, para treinar no CT. Sim, lá no CT eles poerão melhorar ainda mais, dar medalhas para o Brasil e mais e mais. No entanto, estas referências locais se afastam de suas raízes, podendo enfraquecer o já combalido trabalho de captação de novos atletas nas cidades onde viviam e treinavam e onde eram referência e ídolos.

Mesmo assim, mesmo falando neste post específico mais contra que favorável ao CT, eu sou um profundo defensor da estrutura, que talvez seja grande demais, mas oferece infraestrutura jamais imaginada por nós, atletas, dirigentes e amantes do esporte paralímpico.

Que este grande presente que recebemos seja bem pensado e gerido, sendo a semente de um esporte paralímpico forte para todo o Brasil.

 

Abraços!